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Toda submissa carrega insubmissão

Foto: Canva
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A carne que já levou tapas e o coração que já foi exposto. Toda mulher pensa que aquele homem será diferente. E se vê num elo interminável do patriarcado atrelado a sua fácil maneira de dominar seus sentidos. As alianças feitas. O sexo. O prazer. O desprazer. A violência. Tudo isso carrega um peso indecifrável. A mais frágil das mulheres esconde no olhar uma força indomável. As que mais parecem frágeis costumam trazer consigo uma armadura sem medidas. O olhar caído ao lembrar do ato violento sofrido. De um. De dois. De sabe lá quantos. Como se todos se tornassem uma única figura. A estagnação. A cara inchada. A mágoa que jamais será redefinida. A revanche. 

Nada foi como antes. O rosto angelical daqueles homens. O príncipe encantado. A figura amorosa paterna. O super-herói. Toda alegria se esvaiu de forma única. Este não é um livro feminista convencional. Ele é sentimento. O sentimento de que toda submissa carrega a insubmissão. E a gente aprende isso. Ou sendo uma submissa ou conhecendo uma. Ou apenas refletindo o todas que há em nós. 

Aqui nós não utilizamos do marketing do empoderamento. O empoderamento daqui é o avesso das coisas: ele aparece no ato de não se ter poder algum. Sendo assim, reconhecemos o verdadeiro empoderamento: a impotência de tê-lo nesse sistema. 

Não pretendo vencer os homens. Não pretendemos. Estamos ocupadas demais tentando vencer os nossos sentidos. Os nossos elos malfeitos. O que fez a nossa estrutura desabar sobre o dito masculino? Estamos preocupadas com isso. Mesmo que não saibamos. 

Poderia citar Simone de Beauvoir ou Frida Kahlo, mas cito o meu reflexo no espelho. Cito a dona Lourdes da Tijuca. A Maria que mora na Penha. A Clarice de Copacabana. A Fátima de Niterói ou a Ana da Taquara. Todos esses nomes fictícios carregam um quê de realidade. Mesmo que você, mulher que me lê, me odeie, já me refletiu nesse espelho. Ele é um espelho-espiral. Não há mulher de qualquer cidadania ou condição que não reflita. É o cansaço refletido por gerações. É a indignação disfarçada de bom dia. É o homem que há em nós querendo exercer a nossa função, mas em vão. Porque não há como competir. Nem todas as horas extras que o homem x ou y tenha trabalhado a mais do que qualquer mulher nesta Terra seria capaz de suprir essa função. É a função da dor

Nesse carrossel de sentidos, há esperança. Mas esse livro não vai falar sobre esperança. Vai falar sobre insubmissão e submissão. E nenhuma dessas palavras consegue beber da fonte da esperança, pois ambas carregam a dor de existirem

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1 comentário

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Jossicleudo Melo

Parabéns pelo trabalho

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