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Reportagem inédita: Posso me identificar?

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Três histórias, uma intersecção: o dia em que as vidas de Jorge, Nívia e Joseane mudaram para sempre

Por: Gabriel Rosa, Greco Campos, João Antonio Lima, Letícia Mariana e Millena Guedes.


O homem faz um sinal com a cabeça, perguntando se já poderia começar a falar.

— Meu nome é Jorge Roberto, tenho 60 anos e moro lá em Costa Barros.

Não muito tempo antes, Jorge havia chegado no Parque Madureira com banners e cavaletes embaixo do braço. Com um pouco mais de 2 metros de altura, ele, um homem negro retinto e careca, usava óculos de grau, uma camiza cinza escura, calças jeans e um grande relógio preto. Ele se sentou em um banco de pedra, adequadamente sombreado em um dia de tanto calor. Tão forte quanto a intensidade do sol, às 13h de uma quarta-feira, o vento golpeava como se em provocação. Mesmo assim, não foi o suficiente para tirar o bom humor do homem, que parecia em casa.

— Na minha infância eu trabalhava aqui no Mercadão de Madureira. Sempre rodei. Madureira, Costa Barros, Acari, andava de fora a fora.

Aos 15 anos, Jorge entrou para o Senai, no curso de soldagem, e parou de vender no mercadão. Já adulto, se tornou soldador elétrico. Trabalhou mais de 10 anos na Petrobrás, trabalhou nos estaleiros do Rio e hoje em dia, já idoso, deu baixa na sua aposentadoria. Além da soldagem, Jorge também é bacharel em Direito pela Universidade de Nova Iguaçu, onde se formou em 2007 aos 42 anos de idade.

Ele tem dois filhos: Vinícius e Roberto, o mais velho e o mais novo, respectivamente. Como foi alguém que trabalhou desde jovem, ele não queria o mesmo destino para os filhos até que chegasse o momento certo. Sempre fez um esforço extra para garantir que os dois meninos estudassem em colégios particulares e só os colocou em colégios públicos quando absolutamente necessário.

Às 10h06 da sexta-feira, 31 de outubro, seis mulheres entraram em uma casa de paredes vermelhas e desenhos floridos no quilômetro 32 do bairro Bela Vista, em Nova Iguaçu, região da Baixada Fluminense. Joseane Martins, de 56 anos, havia preparado uma mesa com bolo de fubá e café para receber suas convidadas. Assim que se acomodaram numa pequena sala, Jô — como é carinhosamente chamada — deu início aos informes e, apesar da chuva e da queda de energia elétrica, não deixou sua fala ser interrompida em momento algum. “Aqui é danado pra faltar luz”, comentou. 

Jô, uma mulher de longos cabelos grisalhos e olhos simpáticos, vestia, naquela manhã nublada, uma blusa azul que combinava com a bermuda da mesma cor. Paraibana, mudou-se para o Rio de Janeiro aos 15 anos, ao lado de sua avó. Da terra de origem, no entanto, carrega muito pouco além do sotaque. “Foi aqui que fiz a minha vida, minha história”, diz. Casou-se aos 17 com o primeiro de seus três maridos. Teve três filhos: Daniel, Diego e Davi. Trabalhou capinando quintal, passando roupas e atendendo em um salão de beleza. Aos 55 anos, conquistou o diploma de ensino superior, no curso de Serviço Social. 

Naquela semana particularmente exaustiva, quando outubro chegava ao fim, o pensamento de Jô estava longe. Escondidos atrás dos óculos de aro preto, seus olhos disfarçavam, mas, no fundo, não parava de pensar nos meninos. Foi então que, ao relembrar uma palestra que ocorrera dias antes, falou às mulheres reunidas no cômodo: 

— Não é pra gente abaixar a cabeça diante do abutre. 

Ao andar pelas ruas de pedra do bairro de Jardim Iguaçu, localizado em Nova Iguaçu, município da Baixada Fluminense, nota-se certo silêncio. O dia ainda está começando, são somente 10h de um sábado. Mas, ao entrar em uma das ruas sem saída, o silêncio dá lugar à música Sonho Meu, de Dona Ivone Lara, que escapa pelas frestas do portão branco de uma casa. Atrás dos muros verdes, de tom quase neon, quem escuta a melodia é Nívia Raposo, de 50 anos. Em meio às suas plantas e flores, ela curte o som acompanhada de uma senhora — que depois descobrimos ser sua mãe.

Filha de nordestinos, Nívia é mãe de dois meninos: Rodrigo e Thiago. Em seus raros momentos de lazer, ela gosta de estar com a família, ouvir música e cuidar das plantas. Criada em terreiro, sua ligação com as plantas é antiga e profunda. “Em terreiro sempre tem muita planta. E eu tenho uma coisa em estar com a mão na terra, estar plantando” Algumas plantas estão em vasos especiais, que representam sua família. Um deles tem formato de girafa. São três girafas, uma maior, que representa Nívia, e outras duas um pouco menores, que representam seus filhos. 

Formada em História pela UERJ, Nívia é militante de muitas causas; a rotina, por isso, é bem corrida. Dificilmente consegue ficar muito tempo em casa. “É difícil eu estar em casa. Estou sempre militando, até nos finais de semana. No movimento social, a gente não para nunca. É 24/7”, relata. Os dias são muito movimentados. Sempre busca articular com o movimento negro, com as mulheres do PT e com ambientalistas. Ela sente a necessidade de sempre estar participando de muitas lutas, pois somente assim se conquista algo. 

— É tudo por meio da luta. Nada foi pedido com flores, abraços e carinho. Porque ninguém vai dar isso para a gente.

A VÉSPERA

CAPÍTULO 2

A sexta-feira do dia 27 de Novembro de 2015 foi típica na casa de Jorge. À época, Vinícius tinha 17 anos e morava com sua mãe e ex-esposa de Jorge, Jozelita da Souza. De manhã, Roberto, o mais novo, foi para a escola, no colégio público Murilo Braga, onde cursava o 1º ano do Ensino Médio, e depois foi comprar uma blusa e uma calça para usar no fim de semana. Enquanto isso, seu pai trabalhou normalmente e se reencontrou com o filho de noite, quando ele voltou de seu trabalho. Recentemente, “o homem”, o modo carinhoso como Jorge chama Roberto, tinha conseguido seu primeiro emprego, trabalhando das 13h às 17h em um atacadão em Guadalupe. Os dois eram felizes.

O dia seguinte já começou incomum. Betinho acordou cedo, algo que nunca fazia, e já avisou para o pai: “Vou com meus amigos para o Parque Madureira”. O garoto passou o dia se divertindo com os amigos no parque e reencontrou o pai mais tarde lá mesmo, já que Jorge teve que pagar algumas contas no bairro. O pai voltou para casa sozinho e se sentou para assistir Altas Horas quando Roberto chegou de novo. O menino prontamente já avisou que ia sair novamente, para comer alguma coisa e comemorar com os amigos, todos vizinhos, que realmente tinha conseguido seu emprego.

Mais tarde, os dois desceram juntos até o portão, onde um carro e uma moto dos amigos de Roberto já esperavam o jovem. Contando com Betinho, eram 5 meninos, todos abaixo dos 25 anos. Jorge olhou para o grupo e brincou:

—  Vocês são ruins de roda à beça.  

Sem maiores preocupações, ele voltou para casa. A vida seguiu, e mais ou menos 40 minutos depois sua campainha tocou.

—  Jorge, vai lá embaixo que aconteceu alguma coisa com os meninos.

Jô estava nervosa.

Já era noite quando ela estacionou o carro em um posto de gasolina na Avenida Brasil, em 21 de maio de 2018, segunda-feira. Desceu sozinha do veículo, enquanto seu marido ficou esperando no banco do motorista. Caminhou até uma viatura da polícia, com a fagulha de coragem que ainda tinha, sem perder a marra, e disse:

— Eu não vou sair daqui enquanto vocês não soltarem o meu filho.

Davi, seu caçula, havia sido pego por milicianos no caminho para casa. Daniel, o filho mais velho — que quando criança sonhava em ser policial e dizia que o botão de sua camisa custaria 5 mil reais —, havia se envolvido com o tráfico de drogas e estava na mira de milicianos. Para liberar Davi, eles exigiram a entrega de 11 mil reais.

Jô não pensou duas vezes antes de encarar aqueles homens fardados. A qualquer um que perguntasse, ela diria que Davi era sua alma gêmea. Seria capaz de tudo por ele. “Meu caçula, meu gordinho.” Afinal, havia herdado o gênio forte dela: “Calmaria e tempestade, igualzinho a mim.” Feita a troca, ele foi liberado, e Jô respirou de alívio. Do pouco de memória que driblou o nervosismo do episódio, ela se recorda de ouvir uma última frase dos milicianos: 

— A gente ainda vai pegar teu filho. 

Na sexta-feira, dia 16 de outubro de 2015, Nívia estava feliz. A sorte finalmente sorriu para Rodrigo, seu filho, e ele conseguiu passar o final de semana em casa. À época, era soldado do exército e toda semana havia um sorteio para saber quem ficaria de plantão. Depois de muito tempo sendo escolhido, dessa vez, o computador esqueceu seu nome. Quando chegou em casa, de manhã, Nívia conversou com ele, como faziam sempre. À noite, ela percebeu algo estranho. Rodrigo foi à praia com os amigos, experimentou uma Skol Beats, mesmo não sendo muito de beber. Voltou, soltou pipa com o irmão e foi dormir. Mesmo depois, ainda parecia cansado. “Parecia que ele estava carregando um mundo nas costas.” Estava preocupado com o futuro de seus amigos.

Assim era Rodrigo: amoroso, empático, alegre, brincalhão e de muitos amigos. Sempre fazia o possível para ajudar alguém. Por isso, era muito amado. Além disso, participava de tudo quanto é evento. Conhecia muita gente. Seu jeito intenso, bondoso e carismático conquistava qualquer um. Tinha tantos amigos que precisou criar uma segunda conta no Facebook, pois a primeira já havia excedido o limite de perfis adicionados. Vivia conversando com as pessoas pela rede social. Naquele dia, enquanto falava com a mãe, conversava com alguns amigos. Em uma das conversas, contou estar feliz, pois finalmente poderia ir ao baile. “Ele adorava dançar passinho”, conta Nívia.

No dia seguinte, Nívia estudava. Ela morava em Santa Eugênia, mas foi até Jardim Iguaçu, na casa da mãe, para usar o computador da irmã. Ao mesmo tempo, Rodrigo viu os amigos jogando futebol. Avisou que ia cortar o cabelo e voltaria para participar da pelada. Em certo momento, enquanto estudava, ela recebeu uma ligação de Rodrigo. Parou o que fazia para atendê-lo. Ele queria saber quando a mãe voltaria, para poderem comprar um novo celular, visto que o dele havia sido roubado. Pouco tempo depois, teve que parar os estudos novamente para atender o celular. Dessa vez, quem ligava era Thiago, filho mais novo. O menino estava desesperado:

— Mãe, mataram o Rodrigo.

O ABUTRE RONDA

CAPÍTULO 3

“Foi a cena mais triste da minha vida.”

Jorge colocou uma camisa, desceu e andou pela rua até avistar não muito longe o carro em que seu filho havia partido não tinha nem uma hora, agora completamente crivado por marcas de tiro. Foram feitos mais de 100 disparos por todos os lados do veículo e seus 5 integrantes, entre eles Roberto, já mortos lá dentro. Tudo isso em uma via pública. Dentro do carro, reparou Jorge, seu filho usava a mesma roupa que tinha comprado no dia anterior. Enquanto ele ainda estava sem reação, uma mulher bateu em seu ombro desesperada, perguntando se o filho dela estava ali dentro. Eduardo, o filho da mulher, tinha ficado tomando conta da irmã e não saiu para lanchar. Infelizmente, Roberto não partilhou da mesma sorte.

Eles já estavam voltando para casa quando os disparos foram efetuados. Mais cedo, no mesmo dia, Jorge passou pela guarnição da polícia que matou os cinco meninos, que na hora escoltava um caminhão de carga que tinha sido roubado. Já de noite, os policiais esperavam pegar os infratores e se esconderam em uma oficina próxima. Quando o carro com os jovens passou, foi parado e a chacina começou.

Jorge ficou na cena do crime até a perícia chegar, com o coração destroçado. Depois, foi levado para a 39ª Delegacia de Polícia, na Pavuna, onde iria fazer o registro de ocorrência e procurar mais informações sobre o que aconteceu. Chegando lá, encontrou os quatro policiais que mataram seu filho.

—  Eles estavam rindo. Os quatro estavam rindo.

“O raio cai sim duas vezes no mesmo lugar.” 

É o que diz Jô. Não é para pouco: os abutres cruzaram sua vida em duas ocasiões. Às 9h da manhã do dia 22 de maio de 2022, ela acordou com um mau pressentimento. “A ligação de mãe, sabe?” Havia dormido mal e tivera pesadelos com Daniel. Naquele dia, o filho, de 21 anos, havia se reunido na casa de amigos, com outros nove conhecidos, para um almoço. Preocupada, ligou para ele, que respondeu com um certo nervosismo: “Calma, eu tô resolvendo um negócio aqui.” Contrariada, Jô foi ao salão, onde era instrutora capilar, mas, às 14h, seu coração gelou e retornou para casa. “Meu filho não tá bem”, dizia para si mesma. Às 17h, recebeu inúmeras mensagens do número de Daniel. Uma delas dizia:

— Vai pro hospital que teu filho rodou.

Eram os milicianos que ela havia encontrado na noite anterior. Eles estavam de posse do celular de Daniel e cumpriram a promessa que fizeram poucas horas antes: haviam invadido, por volta das 15h, a casa em que seu filho estava. Em seguida, torturaram e assassinaram seis homens que estavam lá, entre eles Daniel. Antes, o colocaram nu em cima de um formigueiro. Segundo testemunhas, não houve troca de tiros. Quatro homens saíram vivos. O motivo de alguns terem sido liberados? “Até hoje eu não entendo, de jeito nenhum”, diz Jô. “Foi o pior dia da minha vida. Foi o dia que meu mundo desabou. Que eu fui amputada pela primeira vez.” Daniel havia deixado uma filha de sete meses. 

Pouco mais de quatro anos depois, Jô sentiu a ferida, ainda não cicatrizada, sangrar novamente. Ela e Davi, o filho mais novo, sempre conversavam todos os dias, todas as horas. Naquela madrugada de 26 de setembro de 2022, não foi diferente. Às 0h30, ela falou com o filho por telefone, pouco antes dele sair de casa. Ela estava preocupada, pois, uma semana antes, Davi havia deixado uma homenagem ao irmão em seu WhatsApp em que dizia: “Tô com saudade de você, mas em breve a gente vai se ver.” Ela tomou seu remédio e dormiu. Pela manhã, se arrumou para sair e ligou a tevê: ocorria uma operação policial no Complexo da Maré. Às 10h, enquanto estava em uma reunião no CRAS, onde era estagiária, seu telefone tocou. Era um amigo do filho:

 — Tia, mataram o Davi. 

Davi, de 21 anos, havia levado um tiro nas costas de policiais do BOPE enquanto saía do “Baile da Disney” — um baile funk no Complexo da Maré. Assim como o irmão, havia se envolvido com o tráfico de drogas, mas, como conta Jô, havia saído e começado a trabalhar como mototaxista, com o equipamento que ganhou da mãe meses antes. Entre as últimas lembranças do filho, se recorda do almoço que ele havia feito para ela na semana anterior ao seu assassinato, ao lado de sua esposa e filha. Ao fim da ligação, ficou catatônica: “Meu mundo desabou. Eu não sabia o que falar, não sabia o que fazer.” À equipe de trabalho que estava ao seu redor, só conseguiu dizer: 

— Olha, eu acho que aconteceu de novo. 

Uma semana antes de sua morte, Rodrigo foi ameaçado por um vizinho, que era policial e miliciano. O homem o abordou e afirmou estar ciente de que Rodrigo assaltava pela área, mas que poderia ficar à vontade, desde que pagasse 500 reais por semana. Era um convite à milícia. Os moradores do bairro sabiam que o menino não assaltava, mas como ele conhecia tudo e todos pela área, a milícia considerava que ele exercia uma certa liderança, e, por isso o convidaram. Mas ele não aceitou. Era muito querido, não podia fazer uma coisa dessas. Assim, o miliciano disse: “Então, eu vou matar você”. Sem cambalear, Rodrigo respondeu: 

— Prefiro morrer.

A ameaça não demorou a se concretizar. No dia 17 de outubro de 2015, Rodrigo Tavares, de 19 anos, foi assassinado. Após cortar o cabelo, ele voltou para casa. Quando estava saindo, foi surpreendido por um carro. De dentro, saiu um homem negro, o qual não conhecia. Ele dizia a mesma coisa que o vizinho: “É você que está assaltando, né?” Rodrigo mal teve tempo para responder. O homem sacou a arma e começou a atirar. O menino correu, mas, infelizmente, não evitou a bala. O tiro pegou nas costas. Rodrigo caiu cerca de dois metros depois. Cruelmente, ainda foram disparados tiros no peito, para acabar com qualquer chance de sobrevivência. Thiago, com 12 anos, havia acabado de entrar em casa. Quando olhou para a rua, viu Rodrigo estirado no chão. Pulou direto do segundo andar da casa para chegar ao irmão. Rodrigo ainda estava vivo. Thiago segurou a mão dele e pediu para ele levantar. Rodrigo até tentou, mas em vão. Faleceu ali, nos braços do irmão.

Ao receber a notícia, ficou desnorteada. Não conseguia acreditar no que havia ouvido. No caminho até o local da morte, pensou ter visto Rodrigo, mas era apenas um menino parecido. “Eu já ia falar ‘Pô, tu deu um susto no seu irmão’.” Quando chegou, a rua estava lotada. Havia muita gente passando mal e desmaiando. Os amigos gritavam muito. Ali, Nívia percebeu que a dor não era só dela. “Aquelas pessoas ali também foram mães dele, também foram pais dele”. O baque foi forte. Nivia tinha Rodrigo não apenas como filho, mas como amigo e companheiro. “Ele era meu fechamento”. Conversavam sobre tudo. Estavam sempre brincando. Tudo isso faz muita falta à Nívia. Perder um filho muda toda a vida de uma pessoa. A traumática despedida de seus filhos a marcou muito. “Meus filhos sofreram tanto”. Ver aquela cena a fez ir à luta.

— É insuperável a perda de um filho dessa forma tão violenta.

A FLOR TAMBÉM É FERIDA ABERTA

CAPÍTULO 4

—  Pode passar o tempo que for. Eu nunca vou esquecer.

Os dias e semanas seguintes foram de absoluto choque e revolta em Costa Barros e no Morro da Lagartixa. No dia do crime, os quatro policiais responsáveis foram dispensados da corporação pelo seu comandante, mas não veria nenhum tipo de paz até que fossem propriamente responsabilizados. Depois de muitos anos, vieram resoluções. Dos quatro, três policiais foram condenados e presos pelos crimes, (colocar pena). O único que não foi, Fábio Piza, será julgado em Fevereiro de 2026.

Infelizmente, outros entes queridos se foram antes de verem os responsáveis pela chacina serem punidos. Jozelita, ex-esposa de Jorge, morreu de tristeza pouco mais de um ano depois da morte de Roberto. A foto dela, com uma pequena descrição, estava entre os muitos cavaletes e banners que Jorge levou para o Parque Madureira naquele dia. Os dois, nesse ano seguinte, fizeram acordos judiciais para receberem indenizações pelas mortes, mas Jozelita faleceu antes de receber o dinheiro.

Nessa época, o psicológico de Jorge também declinou consideravelmente. Ele relata que já pegou seu carro pensando em não voltar mais. Parou seu carro na ponte Rio-Niterói em desespero, pensando em saltar.

—  “Ele era meu homem de confiança. Eu levei a mãe dele na maternidade, busquei ele na maternidade e tive que enterrar ele também.”

Entrar no movimento de vítimas e familiares, como Jorge fez, foi um dos auxílios psicológicos que ele teve naqueles tempos de tanta dor. Como ele mesmo disse, ele não pediu para entrar no movimento, mas foi lançado lá do mesmo jeito. Foi lá, conversando com outros pais e mães que ele se fortaleceu e conseguiu fortalecer outros, e lamenta que Jozelita não conseguiu ter o mesmo tipo de amor antes de partir.

—  Eu ainda sou um pai presente na vida do meu filho. Enquanto eu estiver aqui na Terra, com certeza ele será lembrado para sempre.

Ainda nas primeiras horas da manhã, as notificações no celular de Jô não param de chegar. Desde que fundou, em 18 de outubro de 2018, o coletivo “Filhos nos braços do pai”, ela recebe, diariamente, mensagens de mulheres enlutadas em busca de refúgio. O projeto acolhe familiares de vítimas assassinadas por policiais e milicianos no Rio de Janeiro. “Se não fossem elas, acho que eu nem tava aqui. Aqui é onde eu me cuido”, diz Jô. É uma irmandade: riem e choram juntas. “É cada história que dói, dói muito”, conta, entre um suspiro e outro. “As mães quando perdem seus filhos começam a adoecer.” A paraibana viu de perto casos de mães que enterraram cinco filhos. Outras, ainda buscam os corpos de desaparecidos. No extremo, algumas sucumbem à dor, assombradas pela ausência: “Eu já perdi várias mães também, que não aguentam a perda.” 

Jô, é claro, não passou ilesa dessa dor. Após a perda de Daniel, desenvolveu um quadro de depressão profunda, que a debilitou a ponto de não conseguir levantar da cama: “Estava desolada, só queria morrer, sumir do mundo.” Hoje, faz terapia duas vezes por semana e dedica 30 minutos do seu dia à meditação. Conta que toma cerca de dez medicamentos para depressão, ansiedade e diabetes. Mudou-se da casa antiga, pois era difícil conviver com a memória dos filhos. Neste ano, ela recebeu licença do trabalho após uma crise de pânico. Durante o expediente, sentiu sua boca ficar seca e o corpo gelar. Quando seu chefe a chamou para uma conversa, percebeu que precisava de uma pausa. 

A investigação do caso de Davi está em segredo de justiça e o caso de Daniel será reaberto em breve. Até o fim desta reportagem, nenhum dos assassinos de seus filhos havia sido condenado. Para ela, a falta de oportunidades rouba os sonhos de jovens das periferias, e há um perfil muito claro dos alvos: “O lugar que eles matam mais é na favela. São negros, periféricos, favelados. Meus filhos eram tudo isso.” 

— Eu vou lutar pra viver. Eu não vou abaixar a cabeça para que o sistema me engula. Sou a voz daqueles que calaram.” 

O enterro de Rodrigo estava lotado. Pessoas de tudo quanto é lugar apareceram na cerimônia. Foram muitas homenagens. Desde a criação de músicas até tatuagens. No dia do velório, uma freira recomendou que Nívia procurasse o Centro de Direitos Humanos (CDH). Ela o desconhecia, mas, ao chegar lá, conheceu a irmã Yolanda. Ela era a gestora do CDH e tentava captar recursos para o Projeto Litigância, que visava levar justiça para as famílias da Baixada Fluminense. Desse momento em diante, Nívia passou a integrar diversos projetos e movimentos sociais. “Eu fui jogada, empurrada para esse movimento”. Atualmente, ela é coordenadora do coletivo Movimento de Mães e Familiares de Vítimas da Violência Letal do Estado e Desaparecidos Forçados, além de pesquisadora e “mãe referência” no projeto EnfrentAção. Ele tem por objetivo garantir os direitos à verdade, à justiça, à não repetição e à memória, por meio da escuta. Há também uma grande preocupação com a saúde mental. 

Ela trabalha atendendo e auxiliando mães de vítimas da violência do Estado. Está sempre aconselhando, acolhendo e também instruindo onde essas mães, geralmente da Baixada, podem encontrar ajuda. O que fazer quando se perde um filho para a violência do Estado? A quem recorrer? Nívia entende que há pouca informação disponível. Além disso, na Baixada, o medo toma conta. A região é altamente militarizada. Quase ninguém quer denunciar as violências do Estado. Há um grande receio com possíveis retaliações. Como Nívia enfrenta o problema, tornou-se uma referência de força. “A força do ódio faz a gente ter coragem. Eu já perdi tudo. Você perde um filho e perde o medo de tudo.” 

Infelizmente, ninguém foi responsabilizado. Nivia só teve acesso ao inquérito há pouco tempo. As gravações feitas pela câmera da vizinha nunca foram disponibilizadas. O mandante do crime até foi chamado para depor, mas, obviamente, negou envolvimento. Uma pessoa, com muita coragem, ligou para o disque-denúncia e revelou quem eram os envolvidos no assassinato. O miliciano que ameaçou Rodrigo foi hostilizado pelos moradores do bairro. Em todo lugar que chegava, escutava gritos de “Assassino!”. A pressão popular foi tão forte que ele fugiu do bairro. Até onde Nívia sabe, ninguém foi preso, todos conseguiram fugir.  “Não há boa vontade política para os casos andarem. A maioria acaba arquivado”, relata.

Para ela, a violência do Estado é como a bomba de Hiroshima e Nagasaki: explode de uma vez, mas seus efeitos permanecem para sempre. A ausência de respostas, de apoio psicológico, de justiça e de perspectiva adoece. A saudade é imensa; lutar diariamente cansa e, às vezes, parece inútil. Ainda assim, ela transforma a injustiça em combustível, desistir não é uma opção. Por sua formação, vê a memória como resistência. Incentiva que nenhuma mãe permita que o filho seja esquecido. Ela mesma não permite: participou da Rede da Baixada e, através desse projeto, nasceu o documentário “Nossos Mortos têm voz”, que chegou a diversos países. Até hoje mantém intacta a parede amarela de seu quintal. Quem a pintou foi Rodrigo. Um mural foi feito para eternizar o jovem. Nívia luta para que a história de seu filho não caia no esquecimento. E é por isso que ela continua. Porque, enquanto ela continuar, Rodrigo não morre pela segunda vez.

POSSO IDENTIFICÁ-LO?

CAPÍTULO 5

O Rio de Janeiro ocupa o segundo lugar na concentração de mortes por violência policial entre todos os estados brasileiros, atrás apenas da Bahia. Os dados são da Rede de Observatórios da Segurança. De acordo com a pesquisa, policiais assassinaram 4.068 pessoas em todo o país apenas em 2024. No último ano, uma média de 11 pessoas foram mortas por dia nos estados monitorados. Desses números, jovens de 18 a 29 anos representaram 57,1% das vítimas, sendo 86,2% negras.

De acordo com Caio Brasil, pesquisador da UFRJ, nós temos um governo estadual que hoje utiliza a letalidade policial como plataforma política. Por mais que o número de letalidade policial tenha reduzido no Rio de Janeiro devido à ADPF das Favelas e aos movimentos sociais, estima-se que haverá um aumento nos indicadores de violência policial em breve. 

Quando voltava de um encontro de pesquisadoras da RAAVE — projeto que oferece bolsas de pesquisa a mães que perderam seus filhos — em Brasília, Jô soube da chacina nos complexos da Penha e do Alemão no dia 28 de outubro deste ano. “Trouxe todo o sofrimento que a gente já passou”, disse ela, que havia se oferecido para auxiliar mães durante o reconhecimento de corpos no IML, mas desistiu de última hora. “Meu psicológico não deixou. Aquele tapete humano foi a coisa mais horrível do mundo. É difícil a gente compreender e entender.” 

Na manhã de terça-feira, 28 de outubro, policiais invadiram as comunidades da Penha e do Alemão durante uma operação policial, e assassinaram 122 pessoas. Mães e familiares passaram a tarde reconhecendo os corpos, que foram empilhados a céu aberto, formando um tapete humano. A chacina que teve no Complexo do Alemão e Complexo da Penha é, talvez, uma degustação da provável estatística para 2026. O governador continua prometendo mais operações, mais ações desse porte. Ainda de acordo com Caio Brasil, estamos muito longe da expectativa de uma segurança pública que preze pela vida das pessoas. O que temos visto é o oposto: uma segurança pública que despreza o favelado.

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