CONTINUIDADES HISTÓRICAS, IMPACTOS GEOPOLÍTICOS E A POSTURA DIPLOMÁTICA DO BRASIL NA AMÉRICA DO SUL
A intervenção do governo dos Estados Unidos na Venezuela, intensificada durante a primeira administração de Donald Trump (2017–2021), insere-se em uma longa tradição de ações diretas e indiretas de Washington sobre a América Latina.
Embora não tenha assumido a forma clássica de uma invasão militar, essa intervenção manifestou-se por meio de sanções econômicas severas, isolamento diplomático, reconhecimento de um governo paralelo e constante retórica de ameaça. No centro desse embate esteve o governo de Nicolás Maduro, herdeiro político do chavismo, cuja permanência no poder passou a ser tratada pelos Estados Unidos como uma ameaça não apenas regional, mas também ideológica e estratégica.
Do ponto de vista da teoria do Estado, especialmente a partir de Max Weber, o Estado moderno se define pelo monopólio legítimo da força em um território. A política externa norte-americana em relação à Venezuela questionou diretamente essa soberania ao reconhecer Juan Guaidó como “presidente interino” em 2019, ignorando o controle efetivo do aparato estatal exercido por Maduro. Tal reconhecimento não foi apenas simbólico: permitiu o bloqueio de ativos venezuelanos no exterior e aprofundou a crise econômica e institucional do país.
Sob a ótica do realismo político, conforme formulado por autores como Hans Morgenthau, essa postura pode ser compreendida como uma ação orientada pelo interesse nacional dos Estados Unidos, que buscaram conter a influência de atores considerados hostis, como Rússia, China e Irã, no espaço estratégico sul-americano.
Historicamente, a América Latina tem sido tratada como zona de influência prioritária dos Estados Unidos desde a Doutrina Monroe, proclamada em 1823. O lema “América para os americanos” consolidou uma lógica segundo a qual intervenções externas seriam justificadas em nome da estabilidade, da democracia ou da segurança hemisférica.
Essa racionalidade reaparece em episódios como a intervenção na Guatemala em 1954, o apoio ao golpe militar no Chile em 1973 e as ações indiretas durante as ditaduras do Cone Sul, articuladas no contexto da Guerra Fria. A Venezuela de Maduro, embora situada em um cenário pós-Guerra Fria, passou a ser enquadrada por Trump como um regime autoritário e socialista, evocando uma retórica anticomunista que parecia deslocada no tempo, mas politicamente funcional.
A geopolítica clássica, representada por pensadores como Halford Mackinder e Nicholas Spykman, enfatiza a importância do controle de regiões estratégicas para a manutenção do poder global. A Venezuela, detentora de uma das maiores reservas de petróleo do mundo, ocupa posição central nesse tabuleiro.
As sanções impostas pelo governo Trump ao setor petrolífero venezuelano não podem ser compreendidas apenas como resposta a violações democráticas, mas também como instrumento de pressão econômica em uma disputa maior por recursos e influência. Do ponto de vista da geopolítica crítica, essas ações revelam a assimetria estrutural do sistema internacional, no qual Estados mais poderosos impõem custos elevados a países periféricos sob o discurso da legalidade internacional e dos direitos humanos.
A questão dos direitos humanos foi, de fato, um dos principais argumentos mobilizados pela diplomacia norte-americana. Denúncias de repressão política, perseguição a opositores e deterioração das condições de vida na Venezuela foram amplamente divulgadas por organismos internacionais e pela mídia.
No entanto, a instrumentalização seletiva dos direitos humanos levanta questionamentos éticos e políticos. Hannah Arendt já advertia que os direitos humanos, quando desvinculados de uma ordem política efetiva, tornam-se frágeis e facilmente manipuláveis. As sanções econômicas, ao agravarem a escassez de alimentos e medicamentos, afetaram diretamente a população civil, criando um paradoxo no qual a suposta defesa dos direitos humanos contribuiu para sua violação em escala social.
No contexto sul-americano, a intervenção do governo Trump teve efeitos profundos. Países alinhados ideologicamente aos Estados Unidos, como Colômbia e Chile à época, apoiaram a pressão diplomática contra Maduro, enquanto outros, como Bolívia e Argentina em determinados momentos, adotaram posições mais cautelosas.
A fragmentação regional enfraqueceu mecanismos de integração como a UNASUL e evidenciou a dificuldade histórica da América do Sul em construir uma política externa comum. Essa divisão reforçou a dependência de decisões tomadas fora do continente, limitando a autonomia estratégica regional.
O Brasil ocupou posição particularmente relevante nesse cenário. Durante o governo de Jair Bolsonaro (2019–2022), houve um alinhamento explícito à política externa de Donald Trump. O Brasil reconheceu Juan Guaidó como presidente legítimo da Venezuela e adotou um discurso duro contra Maduro, rompendo com a tradição diplomática brasileira de não intervenção e solução pacífica de controvérsias, consagrada desde o Barão do Rio Branco. Sob a ótica da teoria liberal das relações internacionais, esse alinhamento foi justificado em nome da defesa da democracia e da liberdade. Contudo, do ponto de vista do realismo periférico, conforme formulado por autores latino-americanos, tal postura representou uma renúncia parcial à autonomia diplomática brasileira em troca de um alinhamento assimétrico com uma potência hegemônica.
A história da política externa brasileira revela um constante tensionamento entre autonomia e alinhamento. Durante o regime militar, o Brasil oscilou entre cooperação com os Estados Unidos e tentativas de projeção regional independente. No período democrático, especialmente a partir dos anos 2000, houve um esforço de fortalecimento da integração sul-americana e do multilateralismo.
A postura adotada frente à Venezuela sob o governo Bolsonaro marcou uma inflexão significativa, com impactos na credibilidade do Brasil como mediador regional e defensor do diálogo diplomático.
Do ponto de vista da teoria do poder, Michel Foucault lembra que o poder não se exerce apenas pela força direta, mas também por discursos, normas e mecanismos econômicos. A intervenção norte-americana na Venezuela exemplifica essa lógica: sanções, isolamento financeiro e reconhecimento seletivo de legitimidade constituem formas de poder que operam sem a necessidade de tropas no território.
Esse tipo de intervenção, mais difuso e menos visível, tende a produzir efeitos duradouros sobre as estruturas sociais e políticas dos países afetados.
Em síntese, a intervenção do governo Trump na Venezuela não pode ser compreendida como um evento isolado, mas como parte de uma continuidade histórica da política externa dos Estados Unidos na América Latina. Seus impactos ultrapassaram as fronteiras venezuelanas, influenciando o equilíbrio político sul-americano e testando a coerência diplomática de países como o Brasil.
Ao mobilizar discursos sobre democracia, direitos humanos e segurança, essa intervenção revelou as tensões entre soberania estatal, interesses geopolíticos e valores universais.
Para a América do Sul, o episódio reforça a necessidade de repensar estratégias de integração e autonomia, sob pena de permanecer refém de disputas externas que historicamente têm limitado seu desenvolvimento político e institucional.
Além dos efeitos imediatos sobre a Venezuela, a intervenção conduzida durante o governo Trump evidenciou uma transformação mais ampla na forma como a soberania estatal vem sendo relativizada no sistema internacional contemporâneo. A noção clássica de soberania, formulada por Jean Bodin e posteriormente consolidada na ordem westfaliana, baseava-se na autoridade suprema do Estado dentro de seu território e na não interferência externa.
No entanto, a prática internacional recente demonstra que essa soberania tornou-se condicional, frequentemente subordinada a critérios políticos, econômicos e ideológicos definidos pelas grandes potências. No caso venezuelano, a legitimidade do governo passou a ser julgada externamente, abrindo precedente perigoso para a normalização de intervenções indiretas em regimes considerados indesejáveis.
A teoria geopolítica contemporânea ajuda a compreender esse movimento como parte de uma reconfiguração da disputa por zonas de influência em um mundo formalmente multipolar, mas estruturalmente assimétrico. A presença crescente da China na América Latina, por meio de investimentos em infraestrutura e energia, assim como o apoio político e militar da Rússia ao governo Maduro, contribuíram para que a Venezuela se tornasse um espaço de disputa estratégica ampliada.
Nesse contexto, a política de pressão máxima adotada por Trump pode ser interpretada como tentativa de reafirmação da hegemonia estadunidense no hemisfério ocidental, em um momento de visível declínio relativo de seu poder global.
Do ponto de vista normativo, o caso venezuelano também recoloca no centro do debate a tensão entre legalidade internacional e legitimidade política. A Carta das Nações Unidas estabelece o princípio da autodeterminação dos povos e da não intervenção, mas a prática internacional revela interpretações flexíveis desses princípios quando confrontados com interesses estratégicos.
Pensadores como Norberto Bobbio alertaram para o risco de uma ordem internacional em que o direito cede espaço à força, ainda que essa força se manifeste por meios econômicos ou jurídicos aparentemente legítimos.
A seletividade na aplicação de sanções e no discurso sobre democracia reforça a percepção de que o sistema internacional opera menos como uma comunidade de Estados iguais e mais como uma hierarquia de poder.
No plano dos direitos humanos, a crise venezuelana expôs limites evidentes da governança global. Se, por um lado, é inegável a existência de graves violações internas, por outro, a resposta internacional mostrou-se incapaz de separar a responsabilização política das consequências humanitárias. Relatórios de organismos independentes indicam que sanções amplas tendem a atingir desproporcionalmente as populações mais vulneráveis, agravando fluxos migratórios e crises sociais que recaem, sobretudo, sobre países vizinhos.
Nesse sentido, a América do Sul tornou-se não apenas espectadora, mas também vítima indireta do conflito, lidando com desafios migratórios, pressões econômicas e instabilidade política.
Para o Brasil, os desdobramentos desse episódio deixam lições relevantes. A perda de protagonismo diplomático e a dificuldade de atuar como mediador regional demonstram os custos de uma política externa excessivamente alinhada e pouco pragmática.
A tradição diplomática brasileira, historicamente orientada pelo multilateralismo e pela busca do diálogo, mostrou-se um ativo estratégico que, quando abandonado, fragiliza a posição do país no cenário internacional. A reconstrução dessa credibilidade passa necessariamente pelo resgate de princípios como a autonomia decisória, o respeito ao direito internacional e o compromisso efetivo com soluções pacíficas.
Em conclusão, a intervenção do governo Trump no contexto venezuelano revela mais do que um conflito bilateral: expõe as contradições do sistema internacional, a persistência de práticas intervencionistas na América Latina e os desafios enfrentados pelos Estados sul-americanos diante de disputas geopolíticas globais.
Ao articular teoria do Estado, geopolítica, direitos humanos e história, torna-se evidente que o caso venezuelano é um sintoma de uma ordem internacional em transição, na qual o poder continua a se impor sobre o direito, e a soberania permanece vulnerável à lógica dos interesses estratégicos.
Para a América do Sul, o desafio central permanece o mesmo: construir autonomia política e capacidade de cooperação regional suficientes para não apenas reagir às intervenções externas, mas afirmar um projeto próprio de desenvolvimento, democracia e dignidade humana.




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