Gratidão (e Todas as Coisas que Couberam Dentro Dela)

Arquivo: Jornal Atípico
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Se eu tivesse que escolher uma palavra para carregar o peso e a leveza do meu 2025, essa palavra seria gratidão. Não porque o ano tenha sido perfeito — longe disso — mas porque aconteceu tanta coisa, tanta mesmo, muita coisa boa, muita coisa que preferia não revisitar, mas que, querendo ou não, acabou me ensinando. É curioso como o tempo faz esse tipo de arrumação: mistura o que alegra com o que doeu, embaralha tudo e, ainda assim, entrega algum sentido no final.

As coisas boas, essas foram generosas. Me lembraram que estou vivo, que existe alegria mesmo nos dias apressados, que há uma porção de bênçãos acontecendo sem holofote, sem anúncio, sem cerimônia. Às vezes é só o silêncio antes de acordar, às vezes é um abraço que chega no momento exato, às vezes é a família inteira reunida sem motivo. São pequenas alegrias que oferecem uma espécie de confirmação íntima: estou aqui, estou inteiro, estou feliz do meu jeito.

E, claro, houve também o que machucou — porque ninguém atravessa um ano inteiro sem carregar uns pesos a mais, umas sombras a mais. Mas até isso teve utilidade. As coisas ruins trazem uma lembrança que a gente não gosta de admitir: elas precisam existir para que as boas tenham valor. Sem a falta de luz, o brilho não chama atenção. Sem o frio, o calor não conforta. Sem o silêncio, a voz não emociona. A vida não é um bloco uniforme; ela é feita de extremos, de contrastes que nos obrigam a reparar nos detalhes.

É por isso que digo, sem exagero, que meu ano foi gratidão. Gratidão a Deus, que sempre acha um jeito de me colocar de pé quando eu mesmo já havia desistido um pouco. Gratidão à minha esposa, aos meus filhos e aos meus netos — minha linha de vida, meu ponto de retorno, meu porto seguro. Gratidão à literatura, essa velha conhecida que insiste em me salvar quando o mundo desanda. Gratidão aos amigos, aos que ficaram, aos que apareceram sem aviso, e até aos desconhecidos que cruzaram meu caminho no momento exato em que eu precisava de um gesto simples.

E, sim, também sou grato aos inimigos — porque até eles ajudam, ainda que não percebam. Às vezes são eles que mostram quem eu não quero ser. Às vezes são eles que empurram decisões que eu vinha adiando. A verdade é que, no fim das contas, tudo ensina alguma coisa.

Se eu fosse listar cada motivo, faria páginas e mais páginas. Mas não precisa. Basta dizer que 2025, com todas as luzes e todas as sombras, se tornou um ano inteiro de aprendizado. E, por isso, de gratidão.

No fim, percebi que a gratidão não é uma lista nem um gesto protocolar; é uma maneira de existir no mundo. Não se trata de negar a dor, mas de reconhecer que até ela participa da arquitetura do que nos tornamos. E talvez seja isso que 2025 realmente me ensinou: a vida não precisa ser perfeita para merecer reverência. Basta ser vivida com atenção. O resto, o tempo ajeita.

Escritor Paulo Siuves

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Sobre Paulo Siuves 6 Artigos
Paulo Siuves (Contagem/MG 30 de julho de 1971), é escritor, poeta e músico. Ingressou na faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 2015, Bacharelando em Estudos Literários. Publicou "O Oráculo de Greg Hobsbawn" pela editora CBJE (2009), publicou a Antologia poética “Ao Intento do Vento – Poesias Nas Montanhas de Minas” pela editora Magico de Oz (2017), em parceria com Ângelo Roberto, publicou a “Coletânea Escritores do Vetor Norte da RMBH” pela gráfica O Lutador (2019). Tem seu nome inserido em mais de cinquenta antologias no Brasil e no exterior.

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