O desafio de ser mulher, autista, nordestina e jornalista

O preconceito que machuca. Margareth Bruno é jornalista, escritora, autista e nordestina. Além da
literatura e da comunicação, atua no projeto Justiceiras, oferecendo apoio on-line a mulheres e meninas vítimas de violência. Em entrevista exclusiva, Margareth conta como se sente em relação ao futuro da comunicação e com o capacitismo que envolve a sociedade.

Você é jornalista. Onde se formou e como é atuar na área?


Sim, sou formada em Jornalismo pelo Centro Universitário Fluminense (UNIFLU),
na cidade de Campos dos Goytacazes, desde 2011 – MTB 16.027/MG. Minha
trajetória profissional passou por diferentes experiências enriquecedoras: atuei na
Assessoria de Comunicação do Instituto Federal Fluminense (IFF), integrei a equipe
do jornal Mania de Saúde e, atualmente, sou jornalista da Revista Brasil Conexão
Europa, sediada em Genebra, Suíça. Trabalhar com jornalismo é, para mim, a
concretização de um sonho. Sempre fui apaixonada pela escrita. Embora nunca
tenha me imaginado atuando na televisão, os caminhos da vida me conduziram
para novos desafios. Criei o canal no YouTube e Spotify A Leitura: A Vida é um Livro
e o podcast Pod Ouvir Histórias e Livros, espaços onde me reinvento
constantemente, venço limitações pessoais e profissionais, e me permito crescer
em novas direções.

Quais são os seus livros?
Tenho quatro livros publicados:

    • Fragmentos – Palavras no Silêncio da Noite
    • Lila – A Nuvenzinha que Descobriu a Alegria de Chover
    • Dudu e o Dente de Leite
    • A Vida de Jesus – Uma História de Amor e Salvação
      Além das obras autorais, também sou coautora de diversas antologias
      literárias:
    • Minha História para o Mundo
    • Viva Poesia
    • Tudo é Poesia – Vol. 2
    • Folhas de Outono
    • O Inverno Chegou
    • Vem prá Cá Sarau
    • AIEB – Vol. 2
    • Amor Poético (na qual tive a honra de escrever o prefácio)

    Qual dificuldade enfrentou na área de jornalismo?


    Enfrentei — e ainda enfrento — algumas dificuldades importantes ao longo da
    minha trajetória no jornalismo. Uma das principais foi lidar com os desafios de ser
    uma mulher autista e nordestina no mercado de trabalho. Desde a adolescência,
    convivi com diagnósticos psiquiátricos diversos. No entanto, foi apenas em 2022,
    após o diagnóstico de Autismo do meu filho, que iniciei um processo de
    investigação e fiz Avaliação Neuropsicológica e recebi o diagnóstico de Transtorno
    do Espectro do Autismo e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade.
    Essa descoberta foi como acender uma luz — muitas questões da minha vida
    passaram a fazer sentido. Sempre tive dificuldades com raciocínio rápido,
    espontaneidade, memorização, assimilação e compreensão de certos temas, o
    que impactou profundamente minha trajetória acadêmica e profissional. Além
    disso, como nordestina vivendo no Sudeste desde 2009, enfrentei barreiras
    relacionadas ao meu sotaque. Trabalhar com jornalismo em algumas regiões exigia
    uma “neutralidade” que, muitas vezes, era uma forma velada de silenciamento
    cultural e regional. Em momentos difíceis, cheguei a considerar abandonar o
    jornalismo e buscar outro caminho profissional. Mas permaneci. Ser autista,
    nordestina, mulher e mãe não me limita — apenas me dá uma perspectiva singular,
    empática e sensível para ver o mundo e comunicar com a alma.

    Qual frase te marca ou marcou?
    A frase que mais me marcou veio do meu pai, Francisco Menezes (in memoriam).
    Em uma ocasião ele olhou para mim e disse com firmeza e ternura: “Minha filha, se
    ame. Tem coisas melhores para você.” Essa frase, simples e direta, foi dita há
    décadas, mas ecoa em mim até hoje. Ela se tornou um farol em momentos escuros.
    Foi a partir dela que comecei a repensar minhas escolhas, meus limites e,
    principalmente, meu valor. Aprendi e entendi que o amor-próprio é o ponto de
    partida para tudo que se constrói com dignidade, coragem e verdade.

    Você está no espectro autista. Percebeu algum preconceito por ser uma
    jornalista autista?

    Sim, enfrentei preconceitos ao longo da minha trajetória como jornalista,
    especialmente por causa das minhas limitações, que hoje sei serem decorrentes
    do autismo e do TDAH. Na época, eu ainda não tinha o diagnóstico. E justamente
    por isso, o julgamento era maior — e mais cruel. A pressão por agilidade, a exigência
    por respostas rápidas, a constante necessidade de adaptação me maltratava.
    Não conseguir acompanhar o ritmo acelerado do jornalismo, entregar tudo com a
    precisão exigida, era profundamente doloroso. Acredito que, se eu tivesse recebido
    o diagnóstico desde a graduação, talvez tivesse enfrentado menos incompreensão,
    julgamento e culpa. Talvez houvesse mais empatia. Mas a verdade é que o mercado
    — especialmente o jornalístico — ainda é pouco preparado para acolher
    profissionais neurodivergentes. Hoje, entendo que meu jeito diferente de perceber
    e viver o mundo também é minha força e bandeira. E sigo usando a minha voz, do
    meu modo, no meu tempo — com verdade, amor e coragem.

    O Jornal Atípico divulga jornalistas autistas, com deficiência e transtornos.
    O que você acha que falta para outros portais acolherem o trabalho de pessoas
    com deficiência e transtornos?


    Letícia, antes de tudo, quero te parabenizar pelo Jornal Atípico. Você é uma mulher
    corajosa, inteligente e determinada. Iniciativas como o Jornal Atípico provocam
    uma mudança estrutural urgente e necessária na comunicação brasileira. Que esse
    movimento cresça e inspire muitos outros. Acredito que o que ainda falta, em
    muitos veículos de comunicação, é consciência, vontade e movimento real de
    inclusão. Ainda existe muito capacitismo velado! É necessário que os meios de
    comunicação abram verdadeiramente as portas para os jornalistas
    neurodivergentes, e isso começa com uma mudança de cultura, com a criação de
    ambientes acessíveis, empáticos e humanos. Mas também cabe a nós, pessoas
    autistas e com outras deficiências, ocupar espaços, mostrar que somos capazes,
    criativos e comprometidos. Merecemos respeito e oportunidades, não apenas
    discursos bonitos em datas comemorativas.

    Como você vislumbra o futuro da comunicação?


    Vejo o futuro da comunicação com muito otimismo. Estamos vivendo uma
    verdadeira revolução: um movimento de independência e criatividade, onde cada
    vez mais pessoas criam seus próprios canais, podcasts, newsletters e espaços de
    fala. E isso é maravilhoso! O jornalismo está se descentralizando — e isso permite
    que vozes antes silenciadas agora sejam ouvidas com autenticidade. Eu sou prova
    disso. Não esperei que portas se abrissem para mim. Fui lá, criei meu canal A
    Leitura: A Vida é um Livro, lancei meu podcast Pod Ouvir Histórias e Livros e
    comecei a fazer o que amo — do meu jeito, com a minha voz e identidade. Claro,
    não é fácil. Mas é possível. E, mais do que isso, é necessário. Porque o futuro da
    comunicação pertence a quem ousa contar histórias com verdade e propósito — e
    àqueles que têm coragem de quebrar padrões construídos por anos e anos.

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