Aviso: contém spoilers
Vivemos um momento peculiar no cinema, e nem sempre isso é motivo para comemorar. Numa segunda-feira chuvosa e atípica para mim, por inúmeros fatores pessoais, fui até a sala 4 do Cinemark Downtown assistir F1: O Filme, mais um representante do controverso “cinema das coisas”, que pode ser lido como um sucessor espiritual de Barbie (Greta Gerwig, 2023), Air (Ben Affleck, 2023) e The Emoji Movie (Tony Leondis, 2017) e The LEGO Movie (Phil Lord e Christopher Miller, 2014). Esse gênero (se é que pode ser chamado assim) é a cereja do bolo de uma indústria avessa a riscos, que passou a última década espremendo até a última gota dos filmes de super-heróis. Ainda assim, de vez em quando, ele surpreende. E, de certa forma, foi o que aconteceu hoje, quando fui assistir a um filme sem a menor expectativa e acabei me divertindo bastante, apesar de ter ficado um gostinho de que dava para ser ainda melhor.
Primeiro, algumas considerações sobre a sala. A tela enorme e o caimento da plateia são ótimos, assim
como a acústica. Mas parecia que havia um escurecimento nos cantos, uma espécie de “vignette”, que
atrapalhou, principalmente nas cenas mais escuras, como nas corridas à noite de Las Vegas e Abu Dhabi.
O som estéreo dá uma imersão muito interessante, mas o volume excessivo deixou meu ouvido autista um pouco cansado. Eles têm que se atentar aos clientes neurodivergentes. No mais, acho que faltou grave; não senti aquela vibração dentro do próprio corpo que o áudio do cinema costuma proporcionar.
Agora, vamos ao filme. Obviamente, é um showcase da Fórmula 1, e não tinha como fugir disso. Mas
ainda assim foi possível construir uma história cativante. E o que dizer da primeira sequência, que
apresenta o piloto Sonny Hayes (Brad Pitt), disputando as 24 Horas de Daytona? Uma fotografia tão
linda, com contraste e cores sensacionais, um dinamismo tão empolgante que te bota ali dentro do carro.
A sequência da reta oposta, com os fogos de artifício caindo sobre os carros, é um banquete visual, que
faz certo eco com o que as irmãs Wachowski fizeram em Speed Racer (2008), um filme ousado e
exuberante que falhou nas bilheterias à época, mas que tem sido recuperado como um clássico cult.
Mas aí vem o resto do filme e… cadê tudo aquilo? Parece que a criatividade do diretor Joseph Kosinski
(Top Gun: Maverick, 2022) foi embora depois da sequência de abertura. O filme acaba sendo muito ralo
nesse sentido: muitos closes estáticos e outros que intencionalmente se parecem com uma transmissão de TV. A própria história é contada pelo locutor em muitos momentos, um clichê dos filmes de esporte. Mas dá para entender. É um filme-showcase. Mas mesmo assim poderia ter aproveitado melhor os gráficos da transmissão de TV, que ficam relegados a televisores no cenário. Outro ponto a se considerar são os cortes frenéticos das cenas de ação, em que cada quadro dura menos que um pit-stop na F1 na maior parte do tempo.
A história de um piloto dos anos 90, cuja carreira em ascensão é interrompida por um trágico acidente
(aqui o filme usa imagens reais do acidente de Martin Donnelly na Espanha em 1990), e que volta à F1
para salvar uma equipe falida é completamente inverossímil, mas isso já era esperado por todo mundo. É
preciso ter suspensão de descrença para aproveitar. E dá para entrar na história, que tem personagens bem construídos: o dono da equipe que tenta uma última cartada com o amigo de longa data (Javier Bardem); a mecânica que precisa seguir em frente após um erro e aprender a não sentir a pressão (Callie Cooke); o piloto novato que tem potencial, mas precisa aprender a não se deixar levar pelo glamour e aprender com os mais velhos (Damson Idris); o empresário que alimenta o ego dele (Samson Kayo); a engenheira, interesse romântico do protagonista, que arrisca tudo para provar que é capaz de se destacar em um mundo dominado por homens (Kerry Condon); o executivo que joga sujo para conseguir o que quer (Tobias Menzies). Não são personagens inovadores, mas são bem escritos e funcionam. O que falta? Um pouco mais de profundidade. Às vezes parece que alguns aspectos são corridos demais e tudo acontece de forma acelerada (desculpe os trocadilhos). Sonny é um personagem com um passado, mas isso fica resumido à batida que interrompeu sua carreira, quando as consequências dela poderiam ter sido mais exploradas. Até mesmo a perda precoce do pai, que o une ao novato, é só apresentada, mas não trabalhada.
Mas vamos ao que tenho propriedade para falar, pois sou um musicólogo e não especialista em cinema: a trilha sonora de Hans Zimmer. Este é um compositor já amplamente conhecido e uma das grandes
celebridades de Hollywood em todos os tempos. Explicar sua carreira talvez seja apenas pedantismo da
minha parte ao querer mostrar erudição ao leitor. Mas vale sempre ressaltar que ele é lembrado pelas suas trilhas de estilo minimalista, sua hábil mistura de texturas orquestrais com sons sintetizados e melodias marcantes em alguns trabalhos, como em O Código Da Vinci (Ron Howard, 2006), Gladiador (Ridley Scott, 2000) e Interstellar (Christopher Nolan, 2014).
A trilha aqui é muito bem produzida e arranjada. Zimmer é um profissional exemplar e é amparado por
uma equipe muito competente (equipe essa que já contou com um compositor brasileiro, mas isso é papo para outro dia). Mas o trabalho aqui parece ser um pouco menos ousado e mais trivial. A trilha ajuda muito a ambientar as cenas na pista, com batidas em ritmo acelerado e acordes sintetizados que
intensificam a tensão. Mas nesses momentos, a trilha parece que fica no banco do carona para o resto da
montagem. Não há tanto dinamismo, ou diálogo com a ação na tela; apenas uma sonoridade de fundo. Há um tema principal. Ele surge logo após a sequência de abertura, junto com os créditos iniciais, e é sempre tocado por cordas friccionadas, e metais nos momentos mais dramáticos no final do filme. Ele parece uma versão simplificada do tema de O Código Da Vinci, sendo até mesmo escrito no mesmo tom de Ré menor. Acho que poderia ser trabalhado em outras instrumentações ao longo do filme, de acordo com o tom de cada cena, além de ter outros temas marcantes atrelados a cada contexto, fazendo assim uma espécie de leitmotiff que conferiria mais coerência e impacto dramático.
Mas há especialmente dois momentos em que o tema é muito bem utilizado: o clímax do filme, antes da
corrida final, e a bandeirada ao fim desta. Puros momentos de êxtase cinematográfico, dignos do meme
“absolute cinema”, mostrando Martin Scorsese com as mãos erguidas. Em alguns momentos, a trilha toma um tom grave dramático, que me lembrou a trilha sonora de alguns dos primeiros jogos de F1 para o PS3 feitos pela Codemasters, lá pelos idos de 2010–2013. Acho que cria uma sensação de imponência e dá um peso dramático ao ambiente. No mais, o grande uso de canções ao longo do filme faz a trilha de Zimmer perder um pouco de espaço na qual poderia brilhar e falar mais por conta própria.
No final, acaba sendo uma trilha muito bem-feita, que encaixa bem no filme, mas que não busca ser
particularmente inovadora ou espetacular. O compositor “leva o carro para casa”, como diz o jargão da F1
quando um piloto não tem mais o que conquistar na corrida e deve se concentrar em apenas terminá-la de forma suave.
F1: O Filme é divertido, redondo e visualmente atrativo, ainda mais para fãs de Fórmula 1 e
automobilismo, mas fez apostas seguras e poderia ter ido mais longe em vários aspectos. É muito curioso
ver a música seguindo no mesmo caminho do resto da obra cinematográfica. Por mais que não seja um
filme extremamente inovador ou espetacular, ainda é uma boa pedida para se divertir.
Nota: 7,5/10

