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As crises internacionais que atravessam a Ucrânia, a Rússia, a Venezuela e o Irã não são episódios isolados nem conflitos distantes, mas manifestações concretas de um rearranjo estrutural do poder global. Vivemos um tempo em que a geopolítica deixou de ser um jogo de bastidores para se impor como força determinante sobre preços, eleições, políticas públicas e soberania nacional.

A guerra entre Rússia e Ucrânia, iniciada em 2022, simboliza essa ruptura: não se trata apenas de tanques e territórios, mas da disputa entre modelos de ordem internacional.

De um lado, a defesa liberal da soberania estatal, do direito internacional e das regras multilaterais; de outro, a lógica realista do poder, da segurança e das zonas de influência, como descreveu Hans Morgenthau ao afirmar que a política internacional é, antes de tudo, uma luta pelo poder. Essa tensão, que parecia amortecida após o fim da Guerra Fria, retornou com força e reposicionou países como o Brasil em uma zona cinzenta entre princípios e interesses.

O impacto desse conflito sobre o Brasil foi imediato e concreto. A dependência brasileira de fertilizantes russos expôs uma fragilidade estrutural do agronegócio nacional, pilar da balança comercial. 

A alta nos preços internacionais de energia e alimentos repercutiu diretamente sobre a inflação doméstica, o câmbio e o custo de vida. O que parecia um conflito regional revelou-se um fator sistêmico, demonstrando que, na globalização contemporânea, não existe neutralidade econômica absoluta. A política externa brasileira, historicamente orientada pelo pragmatismo responsável e pela defesa do multilateralismo, optou por uma postura de neutralidade diplomática, condenando genericamente a guerra, mas evitando alinhamentos explícitos. 

Essa escolha reflete uma tradição do Itamaraty, mas também revela uma tensão interna entre o discurso jurídico da paz e a realidade política do comércio e da segurança alimentar. 

Michael Walzer, ao tratar da teoria da guerra justa, lembra que não basta desejar a paz: é preciso reconhecer quando a violação da soberania rompe os fundamentos morais da ordem internacional. O Brasil, ao tentar equilibrar-se entre blocos, enfrenta o risco de parecer ambíguo em um mundo que exige posicionamentos claros.

Esse dilema reaparece com força na relação brasileira com a Venezuela. A crise venezuelana não é apenas econômica, mas institucional, política e social. A concentração de poder, a erosão das instituições democráticas e a dependência quase absoluta do petróleo criaram um Estado vulnerável, incapaz de sustentar políticas públicas básicas sem recorrer a alianças geopolíticas externas. Para a Rússia, a Venezuela representa um ativo estratégico no hemisfério ocidental; para os Estados Unidos, um foco permanente de instabilidade; para o Brasil, um vizinho cuja crise gera impactos humanitários, migratórios e diplomáticos. 

A política externa brasileira oscilou entre o reconhecimento crítico, a tentativa de mediação e a reafirmação do princípio da não intervenção. Contudo, como alertava Norberto Bobbio, a neutralidade moral diante do autoritarismo não é neutra: ela produz efeitos políticos.

Ao evitar críticas mais contundentes, o Brasil preserva canais diplomáticos e interesses econômicos, mas compromete parte de seu capital geopolítico simbólico como defensor histórico da democracia e dos direitos humanos na América do Sul.

No caso do Irã, a complexidade se aprofunda. O país vive há décadas sob sanções internacionais que moldaram sua economia, sua política interna e sua estratégia externa. Isolado do sistema financeiro ocidental, o Irã construiu redes alternativas de comércio e alianças com potências não alinhadas, como China e Rússia. Para o Brasil, o Irã é um parceiro comercial relevante, sobretudo no setor agrícola, e essa relação contribui para superávits importantes na balança comercial.

No entanto, o comércio com Teerã expõe o Brasil a pressões externas, especialmente dos Estados Unidos, que utilizam sanções e tarifas como instrumentos de coerção geopolítica. Susan Strange já advertia que o poder estrutural — aquele que define as regras do jogo econômico e financeiro — é tão ou mais importante que o poder militar. Nesse sentido, o Brasil se vê constrangido por um sistema internacional no qual decisões soberanas podem gerar punições indiretas, afetando exportações, investimentos e credibilidade financeira.

Esses três eixos — Rússia-Ucrânia, Venezuela e Irã — convergem para um ponto central: a transformação do comércio exterior em arma política. O Brasil, grande exportador de commodities, tornou-se especialmente sensível a esse fenômeno. A dependência de mercados externos, a concentração das exportações em produtos primários e a necessidade de importar insumos estratégicos limitam a autonomia decisória do Estado brasileiro.

A política externa passa, assim, a ser também política econômica interna. Cada voto em organismos internacionais, cada acordo comercial, cada gesto diplomático produz reflexos sobre o câmbio, o crédito e o crescimento. John Mearsheimer, representante do realismo ofensivo, sustenta que grandes potências sempre priorizam seus interesses de segurança, mesmo à custa de normas internacionais. Para países como o Brasil, essa constatação é desconfortável, mas inevitável: o sistema internacional não é regido apenas por princípios, mas por assimetrias de poder.

Do ponto de vista da filosofia do direito, essa realidade impõe uma crise normativa. O direito internacional, fundado na igualdade soberana dos Estados, mostra-se frágil diante de sanções seletivas, intervenções indiretas e pressões econômicas. Carl Schmitt já afirmava que soberano é quem decide sobre o estado de exceção. Hoje, essa exceção se manifesta por meio de embargos, sanções financeiras e exclusões de mercados. 

O Brasil, ao tentar preservar sua autonomia, enfrenta a dificuldade de operar dentro de um sistema jurídico internacional que, na prática, é condicionado por interesses geopolíticos.

A ciência política contemporânea reconhece esse paradoxo: o Estado busca legitimidade jurídica, mas age em um ambiente de competição estratégica.

Historicamente, o Brasil sempre procurou evitar alinhamentos automáticos, apostando no multilateralismo e na diversificação de parceiros. Essa estratégia permitiu ganhos relevantes, mas encontra limites em um mundo cada vez mais polarizado.

A ampliação dos BRICS, o fortalecimento das relações Sul-Sul e a busca por novos acordos comerciais são respostas a esse cenário, mas não eliminam os riscos. O país permanece vulnerável a choques externos, a disputas entre grandes potências e a pressões normativas contraditórias. Amartya Sen lembra que desenvolvimento não é apenas crescimento econômico, mas expansão de liberdades. Uma política externa que ignora direitos, democracia e previsibilidade institucional compromete, a longo prazo, essas liberdades.

O Brasil, portanto, encontra-se em uma encruzilhada histórica. As crises na Ucrânia, na Rússia, na Venezuela e no Irã funcionam como espelhos de um mundo em transição, no qual o poder se fragmenta, as regras se enfraquecem e a economia se politiza. Não há mais espaço para ingenuidade diplomática nem para isolamento voluntário. 

Cada escolha tem custo, e a ausência de escolha também é uma escolha. O desafio brasileiro é transformar pragmatismo em estratégia, neutralidade em autonomia real e comércio exterior em instrumento de desenvolvimento soberano, sem abdicar dos princípios que historicamente sustentaram sua inserção internacional. Em um mundo de conflitos permanentes, o maior risco não é errar, mas fingir que é possível ficar à margem da história.

Nesse cenário de instabilidade estrutural, o Brasil não enfrenta apenas dilemas externos, mas também contradições internas que amplificam os efeitos dessas crises internacionais. A política externa brasileira sempre foi reflexo de sua própria formação histórica: um país periférico no sistema internacional, exportador de produtos primários, dependente de tecnologia externa e, ao mesmo tempo, portador de uma tradição diplomática sofisticada, construída sobre o legalismo, a negociação e o multilateralismo. Essa ambiguidade histórica reaparece com força no atual contexto geopolítico. Ao buscar autonomia estratégica, o Brasil precisa lidar com pressões de potências que utilizam o comércio, o crédito e a tecnologia como instrumentos de poder. A guerra na Ucrânia, as sanções à Rússia, o colapso venezuelano e o isolamento do Irã revelam que o mercado global deixou de ser um espaço neutro de trocas e passou a funcionar como um campo de disputa política permanente.

Do ponto de vista econômico, o impacto dessas crises sobre o Brasil evidencia limites de um modelo baseado na reprimarização das exportações. 

A dependência de commodities agrícolas e minerais expõe o país às oscilações de preços internacionais, muitas vezes determinadas por fatores geopolíticos alheios à vontade nacional. A elevação dos preços de fertilizantes, energia e combustíveis, impulsionada por conflitos e sanções, afeta diretamente a competitividade da produção brasileira e pressiona políticas fiscais e monetárias. 

Economistas como Celso Furtado já alertavam que a inserção subordinada na economia internacional reproduz vulnerabilidades estruturais e limita a capacidade de planejamento soberano. O que se observa hoje é a atualização desse diagnóstico: crises externas operam como mecanismos de transferência de instabilidade para economias dependentes.

No campo da ciência política, essas crises reforçam a percepção de que o sistema internacional caminha para uma ordem multipolar instável, marcada por alianças fluidas e conflitos localizados com efeitos globais. O Brasil tenta se posicionar como ator mediador, defensor do diálogo e da paz, mas encontra dificuldades para sustentar esse papel sem poder material correspondente.

A diplomacia da conciliação, que funcionou em contextos menos polarizados, enfrenta limites quando grandes potências exigem alinhamentos claros. A neutralidade estratégica, nesse sentido, torna-se uma escolha defensiva, mas não isenta de custos. Ao evitar confrontos diretos, o Brasil preserva mercados e canais diplomáticos, porém corre o risco de ser percebido como ator passivo ou oportunista, o que fragiliza sua capacidade de influência em fóruns internacionais.

A filosofia do direito oferece uma lente crítica para compreender esse impasse. O ideal de uma ordem internacional regida por normas universais esbarra na seletividade da aplicação dessas normas. Sanções são impostas a alguns Estados enquanto outros, em situações semelhantes, permanecem intocados.

O discurso jurídico convive com práticas políticas assimétricas, o que gera descrédito nas instituições multilaterais. Jürgen Habermas argumenta que a legitimidade do direito depende de sua aplicação racional e universal. Quando o direito internacional é instrumentalizado por interesses geopolíticos, ele perde força normativa e se transforma em ferramenta de poder. O Brasil, ao apostar no legalismo internacional, vê-se diante de um sistema que nem sempre recompensa essa aposta.

No plano histórico, é impossível dissociar o presente de experiências passadas. A política externa brasileira durante a Guerra Fria também oscilou entre alinhamentos e autonomias relativas, sempre condicionada por interesses econômicos e pressões externas. 

A diferença é que, hoje, a interdependência é mais profunda e imediata. Decisões tomadas em Moscou, Washington, Pequim ou Teerã repercutem quase instantaneamente em Brasília, São Paulo ou nos portos brasileiros.

O tempo da diplomacia lenta foi substituído pela urgência dos mercados e pela volatilidade das percepções de risco. Isso exige do Estado brasileiro maior capacidade de coordenação entre política externa, política econômica e estratégia de desenvolvimento.

As crises na Venezuela e no Irã também colocam em evidência o debate sobre democracia, autoritarismo e soberania. Ao manter relações comerciais e diplomáticas com regimes contestados, o Brasil reafirma o princípio da não intervenção, mas enfrenta críticas internas e externas. Intelectuais como Noam Chomsky lembram que a defesa seletiva da democracia frequentemente serve a interesses estratégicos, e não a valores universais. 

Ainda assim, a omissão diante de violações sistemáticas de direitos humanos cobra seu preço simbólico e político. Para uma democracia como o Brasil, que busca projeção internacional baseada em soft power, essa contradição enfraquece o discurso e reduz a capacidade de liderança regional.

No comércio exterior, o desafio central é transformar dependência em diversificação. As crises globais revelaram a necessidade de ampliar parceiros, investir em valor agregado e reduzir vulnerabilidades estratégicas.

Contudo, esse movimento exige políticas industriais, tecnológicas e educacionais de longo prazo, algo difícil em um ambiente político interno marcado por instabilidade e ciclos curtos de planejamento. A geopolítica, nesse contexto, atua como força disciplinadora: países que não constroem autonomia produtiva tornam-se reféns de choques externos. A história recente mostra que neutralidade sem capacidade econômica é apenas retórica.

Em última instância, as crises na Ucrânia, na Rússia, na Venezuela e no Irã funcionam como um grande teste para o projeto nacional brasileiro. Elas expõem limites, revelam contradições e exigem escolhas difíceis. O Brasil precisa decidir se continuará reagindo aos eventos globais ou se buscará antecipá-los por meio de uma estratégia clara de inserção internacional. 

Em um mundo onde o direito se mistura ao poder, a economia à política e o comércio à segurança, a omissão não é prudência, é fragilidade. O século XXI cobra do Brasil não apenas diplomacia habilidosa, mas visão histórica, coerência normativa e coragem estratégica para assumir seu lugar em um sistema internacional cada vez mais conflituoso e imprevisível.

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