Enquanto o Brasil real enfrenta filas no SUS, insegurança alimentar, precarização do trabalho, colapso ambiental e um abismo educacional crônico, o Congresso Nacional e o Senado Federal parecem operar em uma dimensão paralela — uma espécie de bunker institucional, cuidadosamente construído para proteger não o interesse público, mas um projeto político derrotado nas urnas, embora vigorosamente mantido nos bastidores: o bolsonarismo.
O Parlamento brasileiro, que deveria ser o espaço máximo da representação popular, transformou-se em uma trincheira defensiva, onde o esforço legislativo não se concentra em resolver os dramas estruturais da sociedade, mas em revisar narrativas, relativizar crimes, desidratar investigações e reescrever a história recente.
Não se trata mais de divergência ideológica. Trata-se de blindagem sistêmica.
A política do desvio: quando o essencial vira inconveniente
A técnica é velha, mas funciona. Quando a pauta é indigesta — desigualdade social, reforma tributária progressiva, responsabilização por crimes de Estado, fortalecimento de políticas públicas — o Congresso reage com a agilidade de um bicho-preguiça sedado.
Mas basta surgir qualquer iniciativa que ameace o espólio simbólico do bolsonarismo para que o Parlamento entre em estado de alerta máximo.
CPIs são sabotadas, relatórios são esvaziados, narrativas são relativizadas.
Tudo em nome da “pacificação nacional”, esse conceito elástico que, curiosamente, nunca inclui justiça, memória ou responsabilidade.
Como já alertava Raymundo Faoro, o Estado brasileiro tende a operar como um patrimônio privado das elites, onde a legalidade é flexível e a Constituição, frequentemente, um detalhe incômodo.
O Congresso, nesse contexto, não legisla para o povo — administra conflitos entre grupos de poder.
É preciso dizer sem rodeios: o bolsonarismo, mesmo fora do Executivo, continua sendo um ativo eleitoral e econômico dentro do Parlamento. Ele mobiliza base, gera engajamento, garante votos e mantém estruturas de financiamento político funcionando.
Blindá-lo não é um gesto ideológico apenas — é um investimento estratégico.
Por isso, não surpreende que figuras centrais do Congresso adotem um discurso supostamente institucional, enquanto operam nos bastidores para impedir qualquer avanço que toque nas feridas abertas do período autoritário recente. A lógica é simples: punir o bolsonarismo é abrir precedente. E precedente, em Brasília, é coisa perigosa.
Como ensinava Florestan Fernandes, as elites brasileiras têm um talento histórico para promover mudanças sem transformação. Muda-se o discurso, preserva-se a estrutura.
A Constituição de 1988 é celebrada no discurso, ignorada na prática consagrando o Brasil como um Estado Democrático de Direito, fundado na dignidade da pessoa humana, na soberania popular e na responsabilidade dos agentes públicos.
Na prática, o Congresso trata a Constituição como um cardápio seletivo: alguns artigos são sagrados, outros são negociáveis, e há aqueles que simplesmente desaparecem quando ameaçam interesses consolidados.
O artigo 37, que trata da moralidade administrativa, vira poesia.
O artigo 225, que protege o meio ambiente, vira sugestão.
O artigo 196, que garante a saúde como direito de todos, vira promessa de campanha.
Mas quando se trata de garantir foro, imunidade, anistia simbólica ou blindagem política, a Constituição reaparece — reinterpretada, torcida, maquiada.
Como diria Lenio Streck, o problema não é a falta de Constituição, mas o excesso de intérpretes interessados.
Direito de Estado ou direito dos amigos do Estado?
O direito de Estado deveria servir à estabilidade institucional e à proteção da democracia. No Brasil, frequentemente serve para proteger os operadores do próprio Estado contra o escrutínio democrático.
A separação de poderes vira desculpa para omissão.
A harmonia entre poderes vira pacto de silêncio.
A governabilidade vira moeda de troca.
O Congresso, nesse cenário, atua menos como poder independente e mais como sócio minoritário de um condomínio político, onde ninguém denuncia o vizinho para não ser denunciado amanhã.
O resultado é um Estado que funciona bem para se proteger, mas mal para servir.
Há algo de tragicômico — quase kafkiano — no modo como temas urgentes são empurrados para segundo plano enquanto se discutem projetos irrelevantes, pautas morais fabricadas ou disputas simbólicas vazias.
O Brasil discute fome, o Congresso discute narrativa.
O Brasil discute desigualdade, o Congresso discute cortina de fumaça.
O Brasil discute futuro, o Congresso discute passado mal resolvido — mas só até onde convém.
Esse descompasso não é acidente. É método.
Como já apontava Paulo Freire, não há neutralidade na política. O silêncio também é uma escolha.
E o silêncio do Congresso diante das urgências sociais é um grito — só que a favor da manutenção do status quo.
O Congresso Nacional e o Senado brasileiro parecem legisladores de um país que já não existe — ou que só existe para poucos. Enquanto a sociedade muda, sofre e cobra respostas, o Parlamento insiste em olhar para trás, não por saudosismo, mas por conveniência.
Blindar o bolsonarismo não é apenas proteger um grupo político; é proteger um modelo de poder baseado na irresponsabilidade, na desinformação e na impunidade.
A democracia brasileira sobrevive — mas manca. E manca porque aqueles que deveriam fortalecê-la preferem administrar seus riscos, em vez de honrar seu espírito.
No fim das contas, o Congresso não foge dos temas que impactam a sociedade por ignorância. Foge por escolha.
E toda escolha política, cedo ou tarde, cobra seu preço.

