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Existe um cansaço que não aparece em exames: o de quem aprendeu que, para pertencer, precisa traduzir a si mesmo o tempo todo. Se a pessoa trabalha, conversa e acompanha o ritmo social, supõe-se que o sofrimento seja pequeno. Mas essa leitura confunde aparência com realidade.

Muitos autistas aprendem a decifrar expressões, treinar contato visual, modular a voz, calcular quando falar. Não porque seja natural, mas porque espontaneidade pode custar aceitação. A camuflagem social é uma experiência corporal: cérebro em vigilância, corpo tenso, mente que não repousa. Após situações simples; uma reunião, ou até mesmo um encontro, surge exaustão profunda por horas de alta compensação neurológica. Ainda assim, escutam que “nem parecem autistas”. Frases que, como elogio, invalidam: se parece fácil, não deve doer. Mas dói.

Diagnósticos tardios, especialmente entre mulheres, são precedidos por anos acreditando ser excessivas, inadequadas. Quando chega, o diagnóstico raramente é prisão, é linguagem que permite olhar para si sem a lente da falha. Mas persiste o paradoxo: quanto maior a autonomia aparente, menor o suporte. Espera-se que deem conta, porque sempre deram. Ninguém pergunta: a que custo?

Falar desse custo é reconhecer que sofrimento não precisa ser escandaloso para ser legítimo, que esforço constante é sobrecarga, e que adaptação não é ausência de necessidade. A inclusão verdadeira não se mede pela capacidade de suportar ambientes hostis, mas pela coragem de torná-los humanos. Incluir não é permitir presença. É reduzir o desgaste de existir. Pertencer deveria ser sinônimo de descanso.

Sobre a autora

Taynara Thompson é escritora, analista comportamental e especialista em
comunicação neurodivergente. Autora de três livros já publicados ( Sempre Estivemos
Aqui, Diamantes a Lapidar e O casamento que ninguém te ensinou a ter). Em 2025,
fundou a Editora Thompson – Comunicação Neurodivergente. Graduada em gestão
pública, Taynara dedica a vida a projetos que ampliam a escuta e a compreensão das
múltiplas formas de pensar e existir. Sua trajetória é marcada por traduzir o invisível
em linguagem acessível. Seu trabalho conecta ciência, sensibilidade e responsabilidade
social, formando pontes entre indivíduos, famílias e instituições. Colunista do Jornal Atípico.

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